terça-feira, 25 de novembro de 2014

A chuva



A CHUVA
Chuva que se foi...
Seus pingos doces
Caindo no chão.
De leve foi passando,
Sobre a terra,
E nem chegou ao coração.
O fim da tarde ainda está por vi,
A noite um devir será,
E as estrelas não vão aparecer.
O vento que bate forte,
Anunciando o novo dia,
E a chuva dissipa nosso destino.
A chuva vai passar,
Mas já sei que tu não vens,
Nem passarás por essa porta.
Pela janela olho o horizonte,
E vejo somente o tempo,
Vazio da nossa história.
Quando você chegar,
Na manhã de domingo,
Vamos juntos relembrar,
Tudo que já passou.
Céu azul, cor do seu vestido,
Chuva calma que nos revela,
O amor que não partiu.

Zezinho – 25 de novembro de 2014

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Manoel de Barros



O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Manoel de Barros - Aprendimentos



Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Só Dez Por Cento é Mentira (Manoel de Barros) - 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Paradoxal



PARADOXAL
Dividir também é unificar,
Determinada concepção,
Do mundo que se transforma,
Da vida que se aflora,
Da consciência que se arrebenta.
Unificar também é dividir
Determinada concepção,
Por de cabeça para baixo,
Confundir o inconfundível
Deixar tudo no vazio, da imparcialidade.
Há quem tem o pão na mesa,
Grita alegre todos os dias,
Os pés rachados, maltrapilhos.
E o que vamos nós fazer?
Os trópicos se transmutam,
As vozes se escutam, e a chuva?
Ainda não veio molhar este chão.
A democracia no cio, no cio
Da hipocrisia, agora quer vomitar.
Durante o dia ela grita!
A noite macula, se esconde.
O diabo também dialoga,
E divide os seus pudores na terra.
O Senhor também divide: “eu vim para dividir”.
Mas partilha seu pão sobre o mundo.
É pífia essa ideologia!
A tudo querer garfar,
Amanhã é outro dia,
Dia de revolucionar!!!
Zezinho – 06 de novembro de 2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Canta América



Canta América...
Gritem todas as línguas
Uma canção revolucionária
Viva Mercede Sosa!
companheiros levantem a voz
De justiça e paz...
Todas as mãos unidas
Liberdade a toda América Latina!
Liberdade a toda América Latina!
Insurreição!!!
Che, chaves, Ivos, Fidel, Paulo Freire...
E tantos outros...
Salve a luta!
Revolução!!!
Salve Mercede Sosa
E o todos os pobres da América latina.



Sumaré, 07 de outubro de 2009.





Zezinho